Pra quem ainda não sabe, The River é a nova série paranormal/de terror da ABC, que se passa na floresta Amazônica, que estreou na terça dia 7, com episódio duplo de 1 hora e meia.
Com produção executiva de Steven Spielberg, a primeira temporada contará com 8 míseros episódios e participação de Katie Featherson, a Katie de Atividade Paranormal. Coitada! Não bastasse sofrer com as paranormalidades em casa, ainda trazem a menina pra sofrer do mesmo mal no meio da floresta? Puta falta de sacanagem.
Sem mais delongas, confira a review com Spoilers Abaixo:
Dois minutos depois que The River terminou de ser exibida nos EUA, as primeiras mensagens que se viam no twitter poderiam ser divididas em duas vertentes: a do espectador “leigo”, que envolvido pela atmosfera de suspense, curtiu a série, mesmo com todas aquelas referências cinematográficas e seriais básicas. E a do espectador “entendido”, formada por críticos e consumidores maciços do gênero, e que também enxergou todas essas referências. Com a diferença de que o “entendido”, SÓ as enxergou.
Estou, em primeira instância, dentro dessa segunda categoria. Até porque, diante do piloto de The River – e se tudo tivesse parado nele – eu só consegui direcionar o foco para essa quantidade quase absurda de referências. A série é, de fato, uma salada de estética alheia e nos primeiros instantes, é só nisso que você consegue pensar.
No entanto, o cínico que eu não sou sempre reage mal ao desdém. Ao invés de me dedicar a mostrar meu conhecimento dessas referências fazendo piadas sobre as semelhanças com Atividade Paranormal, Lost e A Bruxa de Blair, resolvi entender que já tinha muita gente fazendo esse trabalho, e decidi fazer o oposto. Decidi dar uma boa dose de crédito a The River, e pelo menos no segundo episódio, me senti recompensado.
O Piloto foi problemático sim, foi muito. E antes de seguir em frente, vamos logo falar do que salta aos olhos: os brasileiros falando espanhol. É péssimo, eu concordo. Mas ficar dizendo que uma produção milionária não tem competência pra ter uma consultoria de língua portuguesa também não adianta. Eles têm. A questão é que a série não é feita para o Brasil e pouco importa para os americanos se o público brasileiro vai ou não continuar assistindo a série por causa disso. O que importa é que os americanos lidam muito mais com o espanhol do que com o português e que a comunidade que fala essa variação latina é muito maior do que a de brasileiros. Do ponto de vista comercial, os nativos falarem espanhol é muito mais logístico e lucrativo.
Aí vem o segundo problema do piloto: coerência. As buscas oficiais duram um tempão, mas nada de barco. Basta a heroína Lena chegar e bam! Barco encontrado. Segue-se então uma sucessão de diálogos bobos que são típicos dos episódios pilotos que procedem de séries onde o foco é a trama e não a filosofia. Os personagens precisam ser apresentados quase com legendas (alô, TV aberta) e as tensões e conflitos apresentados com pressa e de qualquer jeito.
E dá-lhe bobagens como a tensão sexual entre Lincoln e Lena, como a filha paranormal do mecânico, como o câmera que já se anuncia vítima, como o barco cheio de câmeras a’lá Big Brother Ship Brazil… E por aí vai. Mas nem todo piloto é bom, e temos que ter em mente que aqui o negócio é explicar que o tal apresentador desapareceu, que segredos o rondam, que a jornada pela selva será aterrorizante e que no meio disso, os mesmos daddy issues de sempre.
A série então nos apresenta uma trama até interessante, sobre o tal corpo seco que segundo pesquisa rápida no Google, realmente faz parte do nosso folclore, e que foi parar dentro daquela “concha” no “quarto do pânico”. Seguindo o compromisso de assustar sem mostrar – e justificando a contratação do diretor de Atividade Paranormal – o que temos é muita sombra e muita câmera tremida. Daí as comparações com Lost e A Bruxa de Blair, embora elas se apliquem só a estética. São tramas e intenções totalmente distintas. E estética por estética, as séries se espelham como numa compulsão. A melhor referência de todas foi esquecida: o nome de Glen Morgan nos créditos, e que é sempre sinal de competência e apuro dramatúrgico.
Com o fim do episódio piloto fica a pergunta: vamos ter sempre “o troço da semana”? Com o início do episódio seguinte, a resposta: sim. A diferença, no entanto, também está presente nessa recorrência (vamos reconhecer aí, galera). Ao contrário de séries médicas e policiais, onde o formato de “caso da semana” é uma maneira de retardar planos maiores, aqui em The River é como se tudo fosse um estágio a ser atravessado na busca. O “troço da semana” não é o mais importante, mas é importante. E mesmo sendo cedo para diagnosticar fórmulas, eu acho que o retardo vem da fragmentação da história e não do adiamento dela.
O segundo episódio, Marbeley, eu considero bem bacana. Sem o compromisso de explicar e apresentar, dedicou-se muito mais a contar uma história interessante. E conseguiu.
É bem verdade que por mim aquela garota péssima tinha engolido a “libélula do exorcista” e morrido de uma vez, mas fora isso, eu curti. Reside aí, justamente na libélula, o erro do episódio, que provavelmente na ânsia de não ser acusado de criar perguntas demais, saiu se antecipando em excesso e já mostrando Emmet fazendo “contato”. É complicado reconhecer o equilíbrio, até porque é muito mais fácil errar contando de mais, que de menos.
Ao perceber então, que há uma possibilidade de direção oferecida pelas fitas deixadas por Emmet, o grupo sai do barco e entra na selva. Quando eles encontram o cemitério (como os nossos, cheios de lápides, só que no meio da selva) tudo começou a funcionar pra mim. Quando aquele rosto de boneca virou-se do chão em cima do macaco, eu me arrepiei todo. Uma das coisas mais ASSUSTADORAS que eu já vi na TV. Ideia simples, susto rápido e eficiente.
E quando não poderia ficar melhor, ficou. Sei que os garotos e garotas enxaquecas vão se lembrar de A Bruxa de Blair e seus gravetos pendurados, mas aquele monte de bonecas suspensas foi lindo de se ver. Mais ainda quando aquela boneca virou o rosto e mais ainda, quando o câmera ficou falando com uma enquanto a outra, por trás, não se mexia, mas tinha o rosto mais terrivelmente humano que eu já vi.
A razão daquilo tudo também não deixou a desejar, com outra ideia simples muito bem executada. Até porque as lendas, verdadeiras ou não – não importa – residem nas suas formas mais pueris e circulam e se espalham independente da coerência. A que foi contada por Lena é totalmente possível pra mim, e funcionou muito aos propósitos do enredo. Essa lenda, que pode ser achada no Google em uma variante mexicana chamada Ilha das Bonecas, foi sabiamente adaptada pelos roteiristas, que mantiveram o mais importante: sua estética e essência.
E a equipe de The River é corajosa, usando o recurso do marcador do tempo na madrugada, do mesmíssimo jeito que usaram em Atividade Paranormal. E os mesmíssimos gritos e barulhos na floresta de A Bruxa de Blair. E os mesmíssimos galhos balançando de Lost. Mas de verdade minha gente, eu não liguei nem um pouquinho. A atmosfera estava ali, e eu comprei.
Eu já previa que o tal urso ia aparecer nas árvores e mais ainda, que Lincoln ia acabar metendo o bedelho onde não era chamado. Mais um ponto para a série, ao mostrar aquela cena ótima dele tentando devolver o brinquedo e o “troço da semana”, recusando.
A convergência desse episódio então encontra seu clímax perfeito, quando Tess é arrastada para o rio e o grupo tem a ideia de desenterrar (cool) a verdadeira mãe da garotinha e jogá-la no rio, para então reaver a Sra. Cole. Tudo no ritmo certo, com os exageros sonoros certos e tudo que se espera de uma boa história de suspense (Suspense, ouviu galera? Suspense… Não vamos viajar no existencialismo).
Por fim, focado no episódio dois, fiquei satisfeito. E a review gigante que vocês leem é o reflexo disso. O reflexo das minhas boas expectativas quanto a The River, que pode até conseguir mesmo (pasmem) se livrar dessa membrana pré-concebida de conceitos e impressões na qual foi gerada, quase que impossibilitando totalmente que fosse vista com um pouquinho de boa vontade.
Do nome Spielberg, de onde veio Falling Skies e Terra Nova, essa pode ser a melhor empreitada do gênero. Basta reconhecer que como diz o desaparecido Emmet:
There’s magic out there.


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