sábado, 18 de fevereiro de 2012

[Review] Spartacus: Vengeance – 2X01: Fugitivus [Pre-air]

Por: Marcello Levi



Porque uma boa história supera qualquer obstáculo.

Spoilers Abaixo:



Todo mundo sabe que a produção da série Spartacus teve seu pior pesadelo realizado no final da primeira temporada: a morte do seu ator principal. A série, de muito prestígio e sucesso, poderia sofrer qualquer problema dramatúrgico ou técnico, mas lidar com a perda daquele que era o “rosto do show”, significava algo de tamanha proporção que a grande pergunta foi: dá pra acreditar no futuro?

E não vou negar, a sensação é estranhíssima. Não se pode dizer que impacto de ver outro rosto que não o de Andy Whitfield seja positivo. Spartacus é um personagem que lida com conceitos de liderança e identificação, e isso está totalmente conectado a como o enxergamos. É um personagem cheio de grandes tensões na série e os olhares trocados entre ele e seus algozes são boa parte da graça da trama. Imagine então, lidar com a informação de que ao olhar para Spartacus, estamos olhando não para aquele que acompanhamos durante toda a primeira temporada, mas sim para um rosto totalmente diferente. É o mesmo personagem, mas eu tinha certeza que esse primeiro episódio seria bem problemático no que diz respeito ao envolvimento.

Liam McIntyre, igualmente belo, não tem o mesmo porte físico de Andy. Spartacus perde em tamanho, não impressiona tanto quando aparece na tela (Andy era muito mais musculoso) e notamos o tempo todo o quanto o ator precisa lutar com as desvantagens dessa situação. Todo ator quer imprimir sua marca num personagem, mas Spartacus foi conhecido por todos nós com uma personalidade já construída. Ao assumir o papel, Liam precisar ter cuidado com suas decisões criativas, ou a sensação de descaracterização só aumentaria. Por isso, nesse primeiro episódio, os roteiristas tinham uma tremenda bananosa: apresentar o “novo” Spartacus de modo a torná-lo crível, carismático e igualmente importante. Para isso, uma trama ágil era absolutamente necessária, e foi exatamente isso que nos entregaram.

Uma rápida pesquisa sobre Spartacus já adianta algumas coisas sobre o que pode ser o futuro da série. Com a queda da Casa de Batiatus, os fugitivos tem que enfrentar outro grande inimigo: Claudius. E não era de espantar, já que a decisão de não matar Ilithyia deixava claro que os antagonismos entre ela e Spartacus seriam maximizados quando a presença de Claudius na série se tornasse constante.

Por isso, sem dúvida, o retorno do programa começou a ficar muito legal quando começamos a reencontrar nossos amados personagens. É bem verdade que o ruído provocado pela troca do protagonista está presente o tempo todo – eu não conseguia parar de pensar em como seria o reencontro de olhares entre Spartacus e Ilithyia se ele ainda fosse Andy – enquanto vemos a trama ir se reconstruindo perfeitamente.

Partimos exatamente de onde paramos, com a busca por Naevia e as primeiras menções ao grupo de fugitivos que está aterrorizando Cápua. Quando as notícias chegam a Roma, nada mais natural do que enviar o responsável pela “criação” de  Spartacus – Claudius – para arrumar a bagunça que fez. É aí que o episódio, que inicialmente parecia se tratar apenas da nova liderança do Campeão de Cápua, passa a ser um episódio sobre a inversão de conceito provocada pelo título. Os gladiadores e escravos estão fugindo do passado, ao mesmo tempo em que o passado impõe sua presença.

O retorno de Ilithyia ao Ludus, por exemplo, é angustiante. O massacre foi tão incrível, que a ideia de voltar ali era terrível até pra mim. Sobretudo se ao olhar para um canto, desse de cara com Lucretia, a única sobrevivente cabal do que ocorreu no fatídico dia.

Trazer Lucretia de volta, aliás, parece uma medida desesperada (manter o máximo de rostos familiares diante da perda do maior deles), mas somente a princípio. Pensando bem depois, percebi que a personagem precisava estar presente para testemunhar o provável inferno de Ilithyia e para ser um signo do legado de Spartacus enquanto esteve sob o solo de Batiatus. E pelo maior motivo de todos, claro: Vê-la naquela dinâmica de olhares com Ilithya, Spartacus e Crixus foi muito bacana. Era a dramaturgia provando sua força, mais uma vez.

Aurelia também foi outro bom instrumento na inserção de Liam no universo da série. Embora perigoso, era necessário mostrar que o ator poderia se envolver de verdade com a história. Ver Spartacus lidando com o destino da mulher do saudoso Varro, foi muito bom. A inclinação para a tragédia do personagem é um de seus pontos altos, e Liam chegou a me emocionar enquanto via, lacrimejante, mais um de seus entes queridos sofrendo o julgo de seu nome.

A sequência em que Spartacus tenta salvar Aurelia das mãos de Claudius foi outro ponto alto de Liam. Ali, naquele momento, tudo convergia. E foi um deleite ver como apesar de tudo, aqueles personagens ainda têm tanta força. Spartacus se entrega ao legado de suas próprias decisões, e “legado” é a palavra perfeita diante de tudo que aconteceu. Liam McIntyre herdou um personagem cheio de complexidades, e Spartacus herdou a responsabilidade por uma infinidade de vidas. O soco que leva de Crixus sinaliza a maturidade dos roteiros perante o que aquele homem representa. Um homem que lidera não pelo bem dos oprimidos, mas pelo bem de seus anseios.

Por fim, não poderia estar mais satisfeito com essa estreia. Aposto numa temporada deliciosa e num futuro de entendimento com esse novo astro, que mostrou-se disposto e esforçado nesse começo. Há de se ter atenção quanto a fragilidade excessiva que Liam pode transmitir, mas mesmo assim estou bem animado… Em detrimento de todo o marketing com o sexo e a violência, Spartacus é um ótimo exemplo daquelas tão preteridas “séries sobre pessoas”. A expressão, usada pra ridicularizar as declarações dos criadores de Lost, chega a ser redundante. A não ser que se trate de um programa do Animal Planet, todas as séries são sobre pessoas. E no caso de Spartacus, que pessoas!

Polegar Pra Cima (eles vivem): E quem queria violência e sexo não ficou chupando dedo. Sangue na tela continua sendo a melhor transição de cena do editor. Para agradar os tarados, invasão em bordel com direito a excesso de informação visual (eu não precisava saber que foi Roma quem importou aqueles dildos acoplados na cintura).

Polegar Pra Cima (eles vivem): Lucretia fazendo a louca e esquecendo de tudo. A personagem é um desbunde.

Polegar Pra Baixo (eles morrem): Oenomaus nunca foi um personagem que eu amasse muito, mas nesse retorno ele estava um mala!

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