Drama que vai além de qualquer ficção científica.
Spoilers abaixo!
”You did what you thought was right. Just so happens it wasn’t.” – Rick Grimes
Em certo momento de “Nebraska”, Hershel declara com firmeza que foi bobo ter esperança. Ele agoniza, com um copo cheio na mão, o fato de que por causa dessa noção passante deixou a sua família na mão em tempos de necessidade. Falhou em mantê-los seguros por crer em algo que nunca se mostrou de todo verdadeiro.
E é fácil adivinhar a origem desses pensamentos para uma série que pode ser relapsa em seus temas. Essa, afinal de contas, se mantém a alternativa mais apropriada depois do midseason finale que terminou em tons tão sombrios: um clima de luto, onde os personagens tentam atravessá-lo na frágil desculpa de sobrevivência. Para mais bem do que para mal, é uma série que não se incomoda em seguir a mesma estrada que os outros, e aqui essa estrada a coloca no meio de uma tensão que nunca se dissipa, mas que também nunca chega a explodir. Algo contido que toma forma em calma, pontuada por conversas ultra-dramáticas no decorrer da hora. Tão dramáticas que precisei sublinhar e colocar em itálico e negrito para todo o delicioso drama novelesco não transbordar do copo metafórico.
A diferença positiva aqui? Essas conversas ultra-dramáticas são ótimas, pois a série se livra de muita gordura desnecessária durante elas. O “ultra” vira acessório ao invés de peso.
Na primeira parte da temporada, ela atirava para todos os lados com qualquer cena que não movia a trama. O tato que The Walking Dead tinha para “desenvolver personagens” (termo vago que é mais usado por aí do que deveria) e abordar seus temas era construir soltas ideias que eram sobre a mesma coisa, mas nunca eram mesmo sobre elas. Lori não queria ter um filho por causa do que aconteceu com Carl, e ainda ressentia o que aconteceu com Carl mais por causa do seu casamento com Rick do que pelo acontecido, e isso era, na verdade, por causa de como Shane agia e como ele influenciava o grupo e como ela se sentia mantendo o segredo e como Glenn acabou se envolvendo e como Dale… Era uma mistura. A série confundia a sua falta de foco e funcionalidade com épicas dimensões.
Aqui, tudo se encaixa em uma linha bem mais inteligente de ação. Existe uma divisão no grupo e os personagens andam sobre ela. Ponto. Simples, direto no assunto e, mais do que tudo, um tema que gera ação e retira dela as emoções dos personagens: todos sentem algo sobre o líder, por exemplo. Sobre a pessoa que decide o destino do grupo. E quando eles sentem que esse destino está ameaçado pelo líder ou por outra pessoa, eles transformam esses sentimentos em ação. Isso é boa TV. Justificada.
Shane, em especial, reagiu soltando as suas frustrações na cara de Hershel ao final do episódio anterior, mas o dessa semana estabelece as suas ações melhor do que qualquer impulso. Ele se move como alguém que tem algo a resolver e algo para ser revisto, não fazendo ideia de como agir com essas duas vontades. Bem mais interessante do que o vilão desenfreado de antes, algo que transforma a maneira como os efeitos do massacre repercutem como dominós através do grupo. Cria uma ressonância emocional que a série não costumava apresentar na primeira parte da temporada ou até mesmo no seu ano inicial.
Isso faz com que Lori não vá atrás de Rick por falta de cuidado ou pelo roteiro precisar disso. Ela pega o carro e o capota por uma razão bem explicada: ela não quer que Rick se transforme em Shane. Já Dale não expressa o seu descontentamento apenas para preencher o papel de velho desconfiado, muito menos por dor de cotovelo. Ele está correndo atrás de algo que notou faz tempo, antes que os efeitos sejam piores do que a morte de uma Sophia zumbi. E essa motivação cruza bem no meio com aquela de Lori, e a de Carol e a de Daryl e a de Andrea e a de todos nesse episódio. Até mesmo do T-Dog – ainda que não sejam claras de primeira.
A série cai em um estilo que funciona melhor assim. É simples, é bom.
Mas o que realmente faz o episódio ir além dos outros agradáveis do começo da temporada é Rick e a pequena viagem que ele faz com Glenn para convencer Hershel. Lá, ela pode jogar em cima da mesa o seu conflito central. A luta sobre qual é o modo certo de pensar durante o fim dos tempos. Como estamos acostumados a essa sinceridade (e como ela fez por merecê-la nas tramas anteriores), não soa tão estranho ver Rick e Hershel discutindo isso. Na verdade, soa legal naquele jeito bem descarado, bem The Walking Dead de ser, enquanto Andrew Lincoln e Scott Wilson se provam mais uma vez como uma dupla que se ajuda a melhorar, tentando superar cada fala do outro com maravilhoso entendimento da ridícula e sincera diversão que elas trazem.
O meu raciocínio aqui é que The Walking Dead tem qualidade. É uma boa série. Só que muitos de nós, incluindo a própria série em vários momentos, a julgamos como algo que não é. Ela não é Breaking Bad, ela não é Deadwood. Não é nem Supernatural. Ela é uma série de ação pipoca que fala sobre coisas grandes de uma maneira tão pequena que chega a ser charmosa, e quando entende isso, e quando cumpre isso (como em “Nebraska”), mais do que atinge o seu dever.
Não só isso, mas ela prova o que faz. Além das suas consideráveis virtudes, The Walking Dead também tem muitos defeitos, mas um deles não é enrolar os seus fãs. Ao dizer alguma coisa, ela prova isso mandando direto na sua cara. Quando não funciona, meio que dá pena e é engraçado. Quando funciona, é a sequência final de “Nebraska”. Ação que não serve em nada a trama em si, o A + B. Mas ação que consegue ser tão certeira quanto imperceptível e joga toda a linha central da temporada em uma interessante nova direção, mudando ela de uma maneira mais sábia que qualquer reviravolta.
Já falei muito “Vamos ver no que vai dar” com essa série. Agora? Dá para saber o caminho que ela vai trilhar e como ela vai fazê-lo. Mas não deixa de ser um bom começo.
Outras observações:
- O braço caindo foi um detalhe legal.
- Espero que a Lori fique bem depois do acidente. Não por ela em si, mas quero que aquele bebê sobreviva para virar um zumbi. Sou #TeamBebêZumbi até a mort… Oh.
- Daryl meio que se afasta do grupo ao perceber que está emocionalmente ferido, no melhor estilo James Sawyer. Só precisa melhorar nos apelidos.
- Gostei do modo rápido como a série tratou o enterro dos “zumbis que eles amavam”… Já sabemos como esse tipo de coisa é e essas emoções particulares ao fato de ser uma criança foram bem reviradas antes.
- Ainda não me importo muito com Maggie e Glenn, principalmente quando as conversas entre Glenn e qualquer outra pessoa são mais interessantes (a dele com Rick foi um dos melhores diálogos da temporada até agora).
- O episódio foi elevado com duas das minhas pessoas favoritas no mundo da televisão, Clark Johnson e Michael Raymond-James. O primeiro costuma dirigir episódios bem intensos, cheios de ação e closes dramáticos, pessoas cuspindo nos olhos das outras. Aqui ele faz um trabalho igualmente bom tanto no clima tenso pós-traumático da fazenda, quanto na tranquilidade que define o local – em especial na maneira como coloca os personagens bem pequenos na imagem quando estão se juntando e conectando, formando alianças ou quebrando sentimentos e estabelecendo dúvidas, toda a paisagem gigante os dominando. Já o segundo não teve muito o que fazer, mas a sua presença de tela é tão gigantesca e absurda que o torna a melhor participação especial da série até agora e me fez crer que aquele personagem realmente existia dentro do mundo da série (ou seja, que não era uma muleta do roteiro).

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